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Não é falta de tempo, é excesso de exigência

25/09 /2025

Não é falta de tempo, é excesso de exigência

A pressa não é sua, é do mundo

Vivemos correndo. Do despertador que toca cedo demais ao sono que chega tarde, o dia parece sempre curto para o tanto de demandas que nos atravessam.
É comum escutarmos -ou dizermos- “não tenho tempo”. Mas, será que esse tempo realmente nos falta? Ou será que foi sequestrado?

O tempo como mercadoria

Na lógica neoliberal que rege o presente, não basta trabalhar: é preciso estar disponível o tempo todo.
O celular vibra, a caixa de e-mails nunca fecha, e a expectativa é de que sejamos ágeis, produtivos e “em dia” com tudo.
Aceleramos não porque escolhemos, mas porque o mundo exige pressa.

E quando o ritmo não acompanha, surge a culpa.
Culpa por não entregar, por não estar presente em todas as tarefas, por não corresponder à expectativa de velocidade que nos foi imposta.

Quando a pressa adoece

Essa aceleração contínua não é natural.
É fabricada.
Fabricada por um sistema que confunde valor humano com capacidade de resposta.
Quanto mais rápido, melhor.
Quanto mais disponível, mais reconhecido.

O resultado? Ansiedade, insônia, sensação permanente de estar atrasado até mesmo de si.
Vivemos sempre correndo atrás de algo que nunca se alcança.

A ilusão da eficiência

O discurso é sedutor: “se organizar melhor”, “usar técnicas de produtividade”, “aproveitar cada minuto”.
Mas quanto mais aderimos a essa lógica, mais ela nos engole.
Porque o problema não está em como você organiza o seu tempo, mas no fato de que não existe tempo suficiente para sustentar um sistema que pede o impossível.

Não é você quem falha.
É o mundo que cobra demais.

Parar como gesto de resistência

Se a pressa não é sua, mas do mundo, parar pode ser um ato político.
Silenciar notificações, dizer não a certas demandas, criar pausas e gestos pequenos que quebram a engrenagem da aceleração.

Não se trata de abandonar responsabilidades, mas de reconhecer que nem toda urgência é sua.
Algumas pertencem ao sistema que deseja transformar sua vida em linha de produção.

O tempo que insiste

Talvez, o maior desafio seja resgatar o tempo próprio.
O tempo do corpo, que pede descanso.
O tempo do desejo, que não cabe em cronogramas.
O tempo do silêncio, que não rende relatórios.

Porque, no fim das contas, a pressa não é sua, é do mundo.
E talvez a verdadeira liberdade seja se recusar a vivê-la como se fosse.